Medicamento TruvadaEspecialistas advertem que droga não deve substituir uso de preservativo

Uma nova pesquisa aponta que um medicamento já usado no tratamento de pacientes com HIV pode também ajudar na prevenção da transmissão do vírus da Aids.

O estudo, feito por pesquisadores americanos e publicado no New England Journal of Medicine, indica que o uso do medicamento Truvada ajudou a reduzir em 44% as chances de homens homossexuais com comportamento de risco serem infectados.

O estudo foi feito com 2,5 mil homens gays e bissexuais sob alto risco de contrair o HIV no Peru, Brasil, Equador, na África do Sul, Tailândia e nos Estados Unidos.

Metade dos homens recebeu uma dose diária do Truvada – uma droga antirretroviral – que afeta a capacidade do vírus de se replicar em células. A outra metade recebeu um placebo por dia. Todos foram encorajados a usar camisinha.

Depois de um ano, 36 homens que tomaram Truvada foram infectados pelo vírus, em comparação com 64 infectados entre os que tomaram placebo.

Muitos dos homens falharam em tomar o remédio diariamente. Entre os que faziam uso regular do Truvada, o risco de infecção caiu 73%.

Avanços e preocupações

A descoberta parece ser um importante avanço no combate à Aids, mas, segundo especialistas, não deve ser vista como a forma prioritária de prevenção.

“Não é hora de homens gays e bissexuais jogarem fora suas camisinhas”, disse Kevin Fenton, chefe do programa de prevenção à Aids do centro americano de controle de doenças.

O correspondente de temas médicos da BBC Fergus Walsh adverte também que o estudo deixa muitas questões pendentes: não há conclusões sobre eventuais reduções na infecção entre pessoas heterossexuais; o Truvada traz efeitos colaterais, como náusea; e o medicamento é caro – custa cerca de US$ 36 por dia nos Estados Unidos.

Também é possível que os resultados do estudo tenham sido mascarados por um uso maior de camisinha entre os homens que tomaram o remédio durante os testes.

Por fim, há preocupações quanto a se o uso constante do Truvada poderia ajudar no desenvolvimento de células resistentes à droga.

Complementar

O Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid) dos EUA, um dos patrocinadores do estudo, afirma que ainda são necessários testes para avaliar os efeitos da droga em heterossexuais e mulheres.

“Mas temos razões para acreditar que obteremos resultados semelhantes (nesses grupos)”, disse à BBC Anthony Fauci, diretor do Niaid.

Fauci argumenta que as drogas devem ter um papel complementar na guerra ao HIV. O uso de camisinha e um número menor de parceiros sexuais continuam sendo a melhor forma de prevenir infecções.

“Esperamos que se (a droga) se tornar de fato uma ferramenta útil de prevenção, então o aconselhamento (sexual) associado complementará o efeito da droga e impedirá que as pessoas sejam displicentes e pensem que ‘agora que tenho um remédio não preciso me preocupar (com o uso de camisinha)’”, alegou Fauci.

A organização britânica de combate à Aids Terrence Higgins Trust qualificou os resultados do estudo de “potencialmente significantes”.

“É vital que aumentemos as formas de prevenir a transmissão do HIV, principalmente entre os que estão sob maior risco”, disse o executivo-chefe da organização, Nick Partridge.

De acordo com um relatório divulgado nesta terça-feira pela agência da ONU de combate à Aids (Unaids), há no mundo 33 milhões de portadores do HIV no mundo.

O Brasil tem entre 460 mil e 810 mil pessoas contaminadas pelo vírus.

 

FONTE: BBC BRASIL